Histórias de caçador

 

Iniciamos um tema polêmico mais uma vez. E este bem polêmico. Eu poderia passar minha vida evitando falar sobre este tema. Não ganharei um centavo entrando neste assunto, aliás, certamente, perco mais que ganho. Poderia fazer cara de paisagem e usar a minha resposta padrão: “Este é um tema muito complexo para ser explorado sem tempo adequado” ou então simplesmente “não gosto de caçar”, o que não deixa de ser verdade. Mas, estou com cinquenta anos. Mais de 25 destes 50 tive a oportunidade de viajar por diversos países com diferentes culturas e conversar com diferentes pessoas, de pesquisadores a conservacionistas e gente comum. Seria egoísmo meu não abordar um assunto destes nesta altura do campeonato onde já acumulei tanta experiência, conhecimento e convicções próprias.

 

Caçar um animal animal parece algo bárbaro e brutal; da idade média. De certa forma é. Tirar a vida de um animal com suas próprias mãos, através de uma ferramenta como uma arma de fogo ou arco e flecha envolve carne, sangue e muita coragem. Não imagino como seja este sentimento já que nunca cacei. Nunca cacei pois nunca tive necessidade de buscar meu alimento através da caça e também porque não gosto de sangue e vísceras nem de tirar a vida de um animal pessoalmente. Se gostasse de sangue teria estudado veterinária e não biologia.  Brincadeiras à parte (não poderia deixar de fazer a piada) vamos em frente.

 

Vou dividir este tema em 3 partes. Sob o olhar da conservação, sob o olhar humano e sob o olhar do próprio animal. Esta abordagem não tem a intenção de convencer você que está lendo a respeito da caça. Vamos apenas abordar este assunto sob estes três olhares de forma inteligente e não emocional. Defender um ponto de vista apenas pela forma emocional é um grau de fanatismo e isso te faz uma pessoa perigosa e sem credibilidade.

 

Vamos começar pelo lado humano. Nós seres humanos evoluímos como caçadores e coletores. Isto é um fato. Caçamos para sobreviver em um tempo onde éramos nômades e nos movíamos acompanhando os rebanhos. Caçar está em nosso DNA.

 

 

Matamos animais todos os dias para nos alimentarmos. A diferença está no fato de que se você vive na cidade e é onívoro (que come de tudo incluindo proteína animal), pessoalmente não abate o animal que come. Ao invés disso, vai até o açougue ou mercado e compra um pedaço de um animal, normalmente um pedaço que não possui a forma daquele animal de onde foi retirado o pedaço. E isto te conforta, pois você seria incapaz de matar aquele animal para se alimentar ou à sua família. Imagine ter que matar uma vaca, com aqueles lindos olhos grandes ou um porco que grita à menor ameaça de que vai pegá-lo. Ainda bem que alguém faz isso por você, não é verdade? Desta forma para quem é onívoro é uma hipocrisia criticar a caça sob este ponto de vista humano.  É aqui onde os vegetarianos e veganos comemoram. Não vou entrar nesta outra polêmica aqui, vou deixar para falar sobre o que acho do vegetarianismo e especialmente veganismo em outro artigo. O fato aqui é que a grande parcela da população mundial consome proteína animal. Isto é um fato. Além disso, nós “civilizados” que vivemos nos centros urbanos desconsideramos que muitas regiões especialmente aquelas onde a agricultura é familiar e não se criam animais domésticos como por exemplo no miolo da Amazônia, o consumo de proteína animal depende fundamentalmente da caça. Aí sim existe uma necessidade em caçar para sobreviver.

 

Vamos olhar sob o ponto de vista da conservação. Existem outras coisas na vida, além de caçar, das quais não gosto e portanto não faço. Não gosto de alturas, logo detesto saltar de paraquedas e de bungee jump. Não gosto da adrenalina das montanhas russas, logo não vou.

 

Não gosto de futebol, desta forma não assisto jogos a não ser jogos da seleção nacional. Mas sei que tem muitas pessoas que amam futebol, montanhas russas e saltar de paraquedas. Assim existem pessoas que gostam de caçar. Bem, então vamos aceitar a caça simplesmente porque existem pessoas que tem prazer na caça? Não. Certamente não. Em 2017 tive a oportunidade de viajar por 4 meses pelos EUA, um país onde a caça a animais selvagens faz parte de estratégias de conservação. As unidades de conservação deste país como todas as unidades em nosso planeta apresentam uma área definida e limitada. Os animais que ali frequentam e são protegidos reproduzem-se e seus descendentes têm de procurar áreas diferentes para considerarem como territórios e assim buscar alimento e novamente produzirem mais descendentes. Como as áreas protegidas são limitadas, os animais de diversas espécies acabam saindo das unidades de conservação e entrando em contato com os seres humanos e continuando a reproduzir-se. Em determinado momento, a quantidade de animais de uma determinada espécie ultrapassa a quantidade suportada naquele ambiente, afetando diretamente a conservação de suas presas e do próprio homem que tem sua vida afetada por este desequilíbrio. Animais começam a tornar-se perigosos ou destroem plantações. O uso destes recursos e a caça regulamentada visa

 

estabelecer novamente este equilíbrio e trazer recursos financeiros vindos das licenças expedidas que serão revertidos diretamente para a conservação daquela espécie. Parece loucura mas é exatamente isso. A caça como ação de conservação. Em determinadas épocas do ano são expedidas licenças para caça de ursos. Ninguém lá mata sem licenças. O número de ursos cresceu pela proteção legal e uma quantidade determinada excedeu aquela considerada ideal para a área em questão. Então este excedente é liberado para caça e controlado. As caras licenças para caça de ursos são revertidas para os projetos de conservação dos próprios ursos. Voltando ao início, estas pessoas que gostam de caçar enquanto você gosta de jogar videogame são aquelas que vão pagar pela conservação do urso.

 

Finalmente vamos olhar sob o ponto de vista de quem mais nos interessa, o animal. Vamos imaginar a criação de milhares de galinhas em cativeiro com a finalidade de produzir carne. Elas vivem praticamente em caixas e são alimentadas e medicadas para ganharem massa rapidamente. Vivem uma vida triste, protegidas de predadores mas sem qualquer emoção. Apenas sobrevivem até o dia que são degoladas sem qualquer chance. Vamos imaginar um grupo de porcos criados também para este fim. Vivem em espaços reduzidos e superpopulosos  até o dia em que são levados para um frigorífico, levam um choque e suas vísceras são retiradas enquanto ainda estão sem sentidos. Todos aqueles que estão na fila já sentiram o cheiro da morte que está por vir e não tem o que fazer. Agora, vamos imaginar um grupo de porcos do mato que vivem como porcos, se afundando na lama, procurando alimento nas florestas, se reproduzindo, andando para cima e para baixo... Então um dia, uma bala atravessa seu cérebro e ele morre instantaneamente sem dor nem consciência do que aconteceu. Ele teve todas as chances, desafios e alegrias que uma vida livre permitiu até o dia de sua morte. Se os animais falassem qual seria a vida que eles escolheriam?

 

 

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