Porque da Importância da Conservação Ex-situ

 

Normalmente nas palestras que ministro pelo Brasil, quando chega o tema de animais em cativeiro, tema polêmico que divide a audiência (mais pelo coração do que por conta de conhecimento técnico) mostro a foto de um mutum de alagoas (Mitu mitu) e pergunto ao meu público quem conhece este animal.

 

 

 

Alguns prontamente, confundindo com outras espécies similares, levantam a mão. Sim, a grande maioria não conhece de fato esta espécie pois ela foi extinta na natureza em 1980. Atualizada esta informação, as mãos baixam e eu pergunto a eles qual foi o impacto direto que a extinção do Mutum de Alagoas impôs às pessoas ali presentes na palestra. Um grande silêncio se faz presente no auditório. Nenhum. Esta é a verdade. Mas um homem, um mineiro apaixonado por crassídeos, grupo que reúnes estas grandes aves silvestres que inclui também por exemplo, além de diversas espécies de mutuns, espécies de jacus, havia capturado alguns espécimes de Mitu mitu anos antes de sua extinção na natureza.

 

Em sua propriedade, Azeredo reproduziu estes animais em cativeiro e só por isto o Mutum de Alagoas e sua genética ainda existem. Pela única razão de que alguém em algum momento, transformou sua paixão em uma ação de conservação. Num segundo passo agora, em um projeto que envolve pesquisadores e autoridades ambientais, o mutum de alagoas está voltando a vocalizar em seu habitat original em um processo de reintrodução. Isto é o resultado da conservação ex-situ, que significa conservação fora do ambiente natural em diferentes espécies.

 

Recentemente negociações envolvendo autoridades ambientais brasileiras junto a entidades privadas da Alemanha e da Arábia terão como resultado trazer de volta ao nosso país mais de vinte indivíduos de aves que também estão extintas no Brasil. A famosa ararinha azul ou arara spix (Cyanopsitta spixxi), ave endêmica (que somente existe em determinado local) da Caatinga não existe mais nem em forma selvagem no habitat nem tampouco em cativeiro dentro do Brasil. Lembrando que Caatinga é um bioma exclusivamente brasileiro, logo este belo animal somente existia aqui, neste bioma, em nosso país.

 

Uma vergonha para nós brasileiros e que nos leva a duas perguntas iniciais: o que estes animais estão fazendo lá fora e porque não fomos nós a criar estes animais em cativeiro em nosso país. Ambas as respostas têm de ser debitadas às autoridades ambientais brasileiras que em ambos casos foram cúmplices desta vergonha, repito. A falta de fiscalização adequada para impedir a saída destes animais e de outros da nossa fauna e de políticas públicas pragmáticas apoiando a iniciativa privada que é a única com condições econômicas para conduzir a conservação ex-situ. Na verdade, neste caso específico, ainda bem que a falta de fiscalização adequada ocorreu pois permitiu que ao menos lá fora pudessem salvar a espécie. 

 

Desta forma, criticar a conservação ex-situ, fazer campanhas contra a criação em cativeiro de diferentes espécies, especialmente as ameaçadas é uma tremenda estupidez e somente alimenta uma utopia romântica que fará com que as espécies pressionadas pelo ser humano desapareçam. Até os pesquisadores de espécies selvagens, que historicamente eram contra a conservação ex-situ perceberam isso e entenderam que o objeto de estudos deles está desaparecendo e que a garantia dos bancos genéticos destas espécies está no desenvolvimento e apoio à criação em cativeiro.

 

 

 

Como sempre digo a conservação é muito romântica. Naturalmente nasce no coração e não poderia ser diferente. Não devemos conservar ss as diferentes espécies que vivem neste planeta maravilhoso porque vamos quebrar uma corrente ao retirarmos um elo. O desaparecimento de espécies como a baleia azul, o mutum de alagoas e até a ararinha azul não vão mudar nosso dia-a-dia a não ser criar um sentimento de frustração e tristeza por saber que fomos responsáveis por isso. Conservação nasce no coração, mas passa por um ordenamento técnico e lógico que envolve conhecimento, boas práticas e termina finalmente, no bolso, pois conservação custa muito dinheiro. Dinheiro que o poder público em um país como o nosso não possui mas a iniciativa privada sim.

 

Este por si só já é argumento suficiente para apoiar a criação em cativeiro ou conservação ex-situ como os técnicos preferem. Além disso ainda temos estes animais sendo usados como ferramentas de educação ambiental, e mais ainda apoio à pesquisa e pesquisadores.

 

Desta forma, quem realmente ama este planeta e as diferentes espécies que aqui vivem não pode, nem deve ignorar os benefícios da conservação ex-situ. E apoiar a iniciativa privada em parcerias neste sentido é a coisa mais lógica a ser feita. Demorou...

 

 

Please reload