Patagônia – Os bastidores de uma Aventura

02/09/2015

“Patagonia, Patagonia, embarazada de mitos, que se mezclan con el viento y el aliento de tus hijos… Patagonia. Patagonia… tierra santa, porque Dios así lo quiso, después que el séptimo día, bajo a beber en tus ríos… Patagonia.”
José Larralde

 

 O trabalho de “filmmakers” ou de fotógrafos de natureza nos coloca em locais e situações únicas, e muitas vezes inesquecíveis. Infelizmente, poucos tem essa oportunidade de conhecer cada canto do nosso planeta.
A pergunta mais frequente que ouvimos por aí é: “Dos lugares que vocês estiveram, qual foi o lugar que mais gostaram?”. Eu usualmente respondo que seria injusto escolher um determinado local em detrimento de outro, já que cada local, assim como cada situação que vivenciamos e cada diferente animal, são especiais.


É como quando te perguntam qual foi o maior amor da sua vida. Você diz que cada pessoa foi especial a sua maneira, mas, lá no fundo, no fundo do seu coração você sabe responder esta pergunta mais objetivamente. Bem, para mim, a Patagônia Argentina é este amor. E sei disso, pois quando não estou viajando, o que é raro, e estou em casa sentado tranquilamente no terraço da casa, coloco para ouvir a prosa cantada de José Larralde, trovador gaúcho, para recordar de uma das terras mais selvagens e belas que já conheci.

Terra das massivas aglomerações de pinguins com mais de um milhão de indivíduos, dos gigantescos  elefantes marinhos de cinco toneladas disputando  corpo a corpo fêmeas para seu harém, dos curiosos lobos marinhos brincalhões, da doce baleia franca austral e seus filhotes desajeitados, das inteligentes orcas que surpreendem com suas técnicas de caça.

 

 Nada parece poder sobreviver a uma terra seca, de água salobra e escassa, de frio intenso, que corta a carne com seus ventos constantes. Talvez por isso a colonização europeia dessa terra tenha se dado tão tardiamente, lá pelo século XVIII.
O homem patagônico é um ser bruto, um sobrevivente, a princípio desconfiado e reservado, mas de alma poética, que se embebeda na medida certa, nem mais nem menos, em dois copos de vinho. Defumado pela fumaça de um churrasco de carneiro feito no chão, se entrega à prosa e aos causos, tornando-se gentil e hospitaleiro.
Já tive a oportunidade de gravar a fauna patagônica por diversas vezes. As baleias francas começam a chegar em julho e ficam até dezembro, quando retornam para a Antártida. Os elefantes marinhos também chegam no segundo semestre, primeiro os machos estabelecendo territórios e depois as fêmeas. As colônias de pinguins e lobos marinhos também estão em alvoroço reprodutivo durante a primavera. Para quem quer ver vida selvagem ativa, a melhor época para visitar a Patagônia, é sem dúvida, entre os meses de agosto e novembro.
Todas as vezes que fomos gravar escolhemos este período. Mas algo muito especial se perde nesta época, algo que somente ocorre na Patagônia em uma curta janela de tempo, mais precisamente durante trinta dias entre os meses de abril e maio: Orcas!

Nesta época, os filhotes de lobos marinhos estão começando a dar seus primeiros mergulhos nas águas geladas de Península Valdés, província de Chubut. Distraídos e sem preparo, pequenos grupos de lobinhos desajeitados e brincalhões, experimentam as lagoas rochosas formadas pelas marés, aprendendo a nadar e se relacionar uns com os outros. Um processo de aprendizado importante e muitas vezes não supervisionado pelas mamães lobo, que ficam estendidas na praia de seixos aproveitando o sol. As orcas, os maiores golfinhos do planeta sabem disso.
Um macho de orca é um mamífero que pode atingir nove toneladas de peso e vive em grupos familiares que inclui outros machos, fêmeas e filhotes. Aqui, no chamado “canal de ataque”, uma praia de seixos entre duas lagoas de rochas que enche com a maré alta, um comportamento único, aprendido e ensinado entre as diferentes gerações de orcas ocorre: o “arribamento”.
O arribamento, também conhecido como “varamiento intencional”, é um processo de caça que descreveremos no avançar deste artigo que culmina com uma ação surpreendente: Uma orca lança-se na praia, arremessando-se completamente para fora da água do mar para capturar de surpresa um desavisado lobinho que está cruzando o canal de ataque pela praia, deslocando-se de uma lagoa para outra. Depois de arremessar-se para fora, contorce-se furiosamente, como um “peixe fora d’água” e volta ao mar para juntar-se ao grupo.
Era isso que eu queria testemunhar e tenho tentado colocar nossa equipe nesta praia há cinco anos, disputando os poucos lugares com as maiores equipes de televisão do mundo. Para estar nesta praia, você precisa de diversas autorizações e muito planejamento. As autoridades argentinas são muito criteriosas na seleção de para quem outorgam este direito, já que somente nove pessoas podem estar ao mesmo tempo no local, e como disse, este evento somente ocorre durante trinta dias por ano e não ocorre todos os dias, pois depende de diversas condições. Observe:
(a) Maré alta: As orcas somente conseguem chegar ao canal com a maré cheia e este fato precisa coincidir com a presença de luz para quem pretende ver ou fotografar o evento. É isso mesmo, se a maré alta ocorrer às 6h00, ela vai ocorrer novamente somente às 18h00, ou seja, duas oportunidades sem luz: um dia perdido. Como as marés adiantam a cada dia em uma hora, no dia seguinte, a cheia será às 7h00 e às 19h00, ou seja, nesse dia teríamos luz pela somente manhã. E assim a vida segue…
(b) Pouco vento: O clima precisa estar estável para que o arribamento ocorra. Com muito vento, o mar fica mexido as orcas não conseguem enxergar os lobinhos atravessando o canal. E clima estável na Patagônia, não é exatamente algo que combina muito.
(c) Lobinhos: O principal, precisamos de filhotes de lobos marinho atravessando o canal de ataque bem na hora em que os dois fatores acima estejam perfeitos, ou seja, nestes 30 dias, o evento pode ocorrer somente quatro ou cinco vezes.
(d) Pode parecer piada, mas só quem fotografa sabe que apesar de todas as condições estarem perfeitas, temos o fator humano de quem faz o clique. A orca vem por baixo da água e pode surgir em qualquer lugar do canal, que tem mais de 70 metrosde largura. Saber qual dos lobinhos vai ser atacado, depende do conhecimento de um observador acostumado com o comportamento de orcas, o que normalmente não é o caso do fotógrafo ou operador de câmeras.
Bem, em meados de abril de 2011, nossa equipe teve o privilégio de ser convidada para tentar testemunhar o que considero um dos eventos mais incríveis do comportamento animal que existe. Tivemos a oportunidade de ocupar cinco, dos nove lugares reservados, durante toda uma semana. Isto quer dizer, eu, como apresentador e operando uma câmera com lente fotográfica zoom de 300-800mm, Marcio Lisa e Sabrina Martins Rasmussen como fotógrafos, Claudio Brito como operador da câmera principal e um “veedor”.
O “veedor” é um guarda-parque que além de fiscalizar as atividades das equipes de televisão, tem a nobre missão de alertar a equipe de quando e onde vai ocorrer um arribamento. Tivemos a sorte de sermos acompanhados pelo “Turco”, um guarda-parque que já havia trabalhado conosco com as baleias-francas e que conhece o comportamento da fauna do local há mais de 30 anos.
Chegamos no primeiro dia com o tempo desfavorável e tivemos a péssima notícia de que não rolaria neste dia. Um dia a menos. Por sorte tivemos uma raposa curiosa e um tatu peludo amigável que renderam algumas imagens. Também aproveitamos para fazer imagens da colônia de lobos marinhos, afinal, estes mamíferos eram tão protagonistas desta história presa-predador quanto as orcas.
Como o dia estava perdido, mergulhamos literalmente a fundo na vida destes barulhentos animais. Desde 2007, uma nova atividade na região de Puerto Madryn é desenvolvida turisticamente nas colônias não reprodutivas: o mergulho scuba.
Os lobos marinhos de um pelo sul-americanos são mamíferos que se alimentam de peixes, crustáceos e moluscos, tendo uma atração especial pelas lulas. Os machos mantém durante a estação reprodutiva, um harém com uma média de dez fêmeas.


Pegamos uma lancha de uma empresa de mergulho devidamente credenciada, com um guia como responsável. Após breves trinta minutos, chegamos ao local, uma ilhota próxima ao continente, repleta de indivíduos, especialmente fêmeas e filhotes. Fazia um frio de lascar e a água estava muito gelada. Fomos obrigados a trocar a roupa de 5mm de espessura por outra de 7mm. Mesmo assim, foi um mergulho no gelo.


O que aqueceu o coração e, consequentemente, o corpo foi a situação que vivenciamos. Dezenas de lobos-marinhos vieram nos receber totalmente curiosos. Sem qualquer receio, me cercaram durante todo o mergulho, cheirando e dando pequenas mordiscadas na roupa de neoprene. Uma fêmea mais curiosa e confiante se entregou completamente e tive momentos de interação únicos. Não existem palavras para descrever o que significa esta possibilidade de relação homem-animal. Eu não conseguia controlar o riso de felicidade de estar no habitat dos lobos marinhos. Por várias vezes tive de segurar o regulador com as mãos, pois as risadas afrouxavam a mordedura que mantinha o equipamento preso à minha boca.


No dia seguinte, voltamos à Península Valdés e as condições estavam um pouco melhores. A maré estava enchendo às 13h00, com pico às 15h00, e devíamos estar em frente ao canal de ataque, com pelo menos duas horas antes da maré começar a encher. O propósito disso é zerar a influência das pessoas durante o evento natural, o que poderia favorecer os lobos ou as orcas. As orcas não devem enxergar seres humanos quando chegam e assim também os lobos não devem se distrair conosco.
Nos instalamos surpreendentemente próximos do canal. Para quem achava que as imagens eram feitas de muito longe com lentes potentes, percebi que a minha lente 300-800mm teria de ser usada no máximo em 400mm, dada a proximidade do canal.


Instalados na praia de seixos com os equipamentos apontados para o canal, agora era hora de esperar. Os lobinhos, em franca atividade, se movimentavam pela praia de um lado a outro do canal de ataque bem despreocupados, por vezes sozinhos, outrasem duplas. Lobosadultos que cruzavam o canal atravessavam mais preocupados, ora ou outra parando e esticando o pescoço para observar o mar, como se soubessem que dali poderia vir a morte. E sabiam disso. De repente, Turco nos avisa: “Temos um grupo de orcas vindo a toda velocidade da esquerda”.

 

Com nossos olhos ainda desacostumados com a situação, demoramos um pouco para enxergar as nadadeiras dorsais para fora da água no horizonte. Claudião é o primeiro do nosso grupo a enxergar e festejar. Todos imediatamente viram suas lentes para a esquerda do canal, onde um grupo de sete orcas se aproxima rapidamente. Todos nós entramos em estado de euforia. Ao chegar perto da boca do canal o grupo para e uma delas, uma fêmea grande (Turco já havia identificado os membros do grupo pelo formato e tamanho das nadadeiras dorsais), em um incrível movimento de auto-conhecimento, inclina-se nadando de lado e adentrando o canal, desta forma escondendo sua nadadeira, que no caso dos machos pode atingir1,80 metros. Ela vem, espia e por algum motivo volta ao grupo, que brinca um pouco fora do canal e vai embora. O grupo ainda voltou ao final da maré alta, mas sequer entrou no canal de ataque. Assim terminou mais um dia de espera…

A dura rotina de espera pelas orcas.


Os próximos dois dias foram similares a este. As orcas vieram, mas não se aproximaram da praia. Segundo observadores de outros pontos da Península, elas escolheram outras praias para realizar ataques. Sim, elas realizam estes ataques em diversos pontos de Península Valdés, porém mais de 80% dos ataques, historicamente, são realizados no canal em que estávamos. Daí vem a denominação “Canal de Ataque”. Todos os dias, atravessamos os cerca de quinze minutos de caminhada que separava o canal da casa dos guardas-parque, levando nas costas o equipamento e a esperança de ser aquele o dia em que iríamos testemunhar o evento.


No penúltimo dia de nossa expedição, a maré começaria a encher às 16h00. Isto quer dizer que o pico seria por volta das 18h00. A possibilidade de termos orcas ao canal de ataque resumia-se a uma hora antes e uma hora depois do pico, quer dizer, se viessem neste dia, seria entre as 17h00 e 19h00. O problema é que às 18h30 já não haveria luz suficiente para gravá-las, já que, obviamente, não é permitido usar luzes ou flashes no local. Prá falar a verdade, depois de três dias no canal, minhas esperanças não eram muitas. Além disso, o prognóstico era de muito vento. Se considerarmos que no dia seguinte a maré iria estar boa para orcas a partir das 18h00, nossas chances, mesmo sendo muito otimista, eram poucas e já estávamos considerando planos B e C, como exemplo, em adquirir os direitos de imagem de outros profissionais para não ficar sem as imagens para programa, afinal  o investimento já tinha sido alto demais para voltarmos sem nada.
Chegamos ao canal de ataque perto da  hora do almoço e nos posicionamos embaixo do sol forte. A preguiça como de costume chegou e nos revezávamos em breves cochilos enquanto esperávamos. Por volta das 17h00, chegou o mesmo grupo que vinha visitando o canal nos últimos dias, porém desta vez Turco fez uma observação de que algo estava diferente, o grupo se movimentava e comportava diferente dos outros dias. Ao aproximar-se da boca do canal, todo o grupo desapareceu embaixo da água e surpreendentemente reapareceram dentro do canal.
O vento estava estável, contra o prognóstico. Tudo perfeito, ou melhor, quase tudo perfeito… Faltavam os lobinhos atravessando. Nosso grupo olhava de um lado para outro e nada de lobinhos. As orcas permaneceram um pouco dentro do canal e depois de um tempo foram embora.
Não acreditávamos… pouco tempo antes das orcas chegarem, o canal estava num vai e vem incrível de lobinhos. Já estávamos conversando sobre o que faríamos, quando os lobinhos começaram a voltar dos passeios em direção à colônia, já que o final do dia se aproximava. Que ótimo, agora tínhamos lobinhos e não tínhamos as orcas. Olhei para meus colegas com um meio sorriso de quem partilha uma frustração. Já estava me conformando de pelo menos ter visto as orcas, quando o grupo aparece novamente, já dentro do canal.


Novamente uma das grandes fêmeas e Mel, um macho que acreditava-se que fosse fêmea, como um submarino arremeteu-se em direção à praia. Turco começa a orientar-nos a respeito da direção em que deveríamos apontar nossas lentes “No, no vá atacar esto, los otros, los otros…”: Eram dois lobinhos que passeavam desatentos brincando um com o outro. Subitamente, olhando para aqueles dois seres inexperientes e com cara de cachorro novo, eu sentia uma confusão de emoções. Instintivamente, passei a torcer para o ser mais fraco.


Logo percebi que minha lente era fechada demais para a cena que estava prestes a testemunhar. Uma orca gigantesca surgia na beira da praia com todo seu corpo para fora da água, espalhando espuma para todo lado. Nossas lentes testemunharam essa primeira investida e os cliques não paravam. Continuamos a fotografar e filmar. Eu fiquei observando para ver se a orca tinha capturado um dos lobinhos, quando vi sair daquela confusão os dois bebês correndo sobre suas nadadeiras dobradas como patos assustados se olhando e olhando para aquele ser gigante com cara de quem pergunta “O que é isso que nos atropelou, amiguinho?” Nossa equipe vibrou como se tivesse tirado uma tonelada das costas. Nesse momento, lembrei-me dos documentários de vida selvagem, estávamos vivendo aquilo que eu assistia pela National Geographic quando jovem! Finalmente, os arribamentos haviam começado!


Depois da primeira, vieram a segunda, terceira, quarta, uma quinta tentativa, esta abortada no meio do caminho, quando a orca percebeu que estava atacando um juvenil. Finalmente, no sexto arribamento, a orca atingiu seu objetivo. A presa, um lobinho bem jovem acompanhado da mãe que ao pressentir o perigo, tentou inutilmente alertá-lo. Ela ficou na praia vocalizando seguidamente enquanto seu rebento era carregado pela boca até onde estava o grupo de orcas. Curiosamente, pouco tempo depois o filhote foi solto, num comportamento usual das orcas que estão acompanhadas de filhotes e querem estimular os mesmos a aprender como cercar uma presa.

 

Nesta hora pudemos acompanhar as orcas adultas e filhotes “brincando” de pega-pega com o lobinho e apesar de condoídos com a situação, fizemos nosso trabalho, gravamos e fotografamos a situação. Em casos assim, algumas pessoas confundem a situação e colocam as orcas como monstros devoradores. Não, são animais surpreendentemente inteligentes que montam estratégias de sobrevivência dentro do grupo e aprendem com seus erros e acertos. Animais incríveis!
Mais surpreendente foi o fato de alguns minutos depois, quando pensamos ter perdido o filhote e concluído que as orcas o tinham “finalizado”, eis que o mesmo surge na praia saindo do mar com cara de quem aprendeu uma das suas maiores lições de sua vida.
Ele não havia escapado. Por algum motivo, as orcas o deixaram ir. Meio tonto ainda, vocalizando, caminhou em nossa direção, nos olhou e foi recebido pela mãe. Num ato contíguo, ele procurou pelas tetas e mamou, reafirmando o laço existente entre mãe e filho.
Nesta hora, com o sol desabando no horizonte, sem luz suficiente, deixamos de lado nossas câmeras e ficamos observando por algum tempo as orcas nadando, a colônia de lobos marinhos e alguns elefantes jovens que treinavam combates. Esta é Patagônia. Enquanto termino de escrever este artigo, já planejo uma nova viagem ao paraíso.


Richard Rasmussen

 

(Fotos de Marcio Lisa/Txai)

 

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